Olá, queridas almas. 💛
Há assuntos sobre os quais nunca me canso de falar, porque enquanto continuarmos a precisar de dias de sensibilização para lembrar às pessoas que todos merecemos respeito, alguma coisa ainda está errada. Falar de deficiência intelectual e múltipla não deveria ser necessário apenas numa determinada data. Deveria fazer parte da nossa educação, da nossa cultura e da forma como aprendemos, desde pequenos, a olhar para os outros.
E digo isto também a partir da minha própria realidade. Sei o que é viver com uma deficiência e sei que, muitas vezes, aquilo que mais cansa não é a própria limitação. São as barreiras que aparecem pelo caminho. É a falta de acessibilidade, são os olhares, são os julgamentos, são as pessoas que assumem aquilo que conseguimos ou não conseguimos fazer sem sequer nos conhecerem.
Quando falamos de deficiência intelectual e múltipla, estamos perante realidades muito diferentes entre si. Cada pessoa tem as suas capacidades, necessidades, personalidade, gostos, sonhos e formas de comunicar. Não existe uma pessoa com deficiência igual a outra, tal como não existem duas pessoas sem deficiência exatamente iguais.
E talvez esta seja uma das primeiras coisas que precisamos de aprender: antes da deficiência existe uma pessoa.
Uma pessoa que gosta de determinadas coisas.
Que não gosta de outras.
Que pode querer constituir família.
Que pode gostar de música, cinema, futebol, livros ou animais.
Que pode querer estudar, trabalhar, viajar, namorar, fazer amigos, ter independência ou simplesmente viver uma vida tranquila.
Uma pessoa que ri.
Que chora.
Que se irrita.
Que tem dias bons e dias maus.
Que tem sonhos.
Que tem medos.
Que tem defeitos.
Que tem qualidades.
Ou seja, uma pessoa como qualquer outra.
A deficiência intelectual não define uma pessoa
Existe ainda muito desconhecimento relativamente à deficiência intelectual. E o desconhecimento, quando não é acompanhado de vontade de aprender, pode transformar-se facilmente em preconceito.
Uma pessoa com deficiência intelectual pode precisar de mais tempo para compreender determinada informação, de apoio em algumas tarefas ou de formas diferentes de comunicação. Isso não significa que não compreenda o mundo à sua volta, que não tenha opinião ou que não deva ser ouvida.
Uma das coisas que mais me incomoda é quando alguém fala com o acompanhante como se a pessoa com deficiência não estivesse presente.
"Ela quer isto?"
"Ele pode fazer aquilo?"
"Ela percebe?"
Às vezes, bastava simplesmente perguntar diretamente à pessoa.
Mesmo quando alguém necessita de apoio para comunicar ou tomar determinadas decisões, continua a merecer ser incluído na conversa.
Falar com alguém e não sobre alguém é uma forma básica de respeito.
E quando existe deficiência múltipla?
A deficiência múltipla pode envolver diferentes limitações associadas, podendo existir necessidades de apoio muito significativas. Algumas pessoas podem necessitar de ajuda permanente nas atividades do dia a dia, enquanto outras apresentam diferentes níveis de autonomia.
Mas há uma coisa que não devemos confundir: necessitar de ajuda não significa não ter dignidade ou não ter vontade própria.
Aliás, uma das maiores confusões que ainda fazemos enquanto sociedade é acreditar que autonomia significa fazer absolutamente tudo sozinho.
Não significa.
Autonomia também pode significar ter direito a escolher.
Ter voz.
Ser ouvido.
Participar nas decisões.
Escolher a roupa que quer vestir.
Escolher o que quer comer.
Escolher onde quer ir.
Ter privacidade.
Ter acesso à educação.
Ter acesso à saúde.
Ter oportunidades.
Poder dizer sim.
Poder dizer não.
Mesmo quando existe necessidade de apoio, a pessoa deve continuar a ter o máximo de participação possível na própria vida.
Não infantilizes uma pessoa adulta
Há outra coisa que precisamos urgentemente de aprender: uma deficiência intelectual não transforma automaticamente um adulto numa criança.
Não precisamos de falar com uma pessoa adulta como se estivéssemos a falar com um bebé.
Não precisamos de usar uma voz exageradamente infantil.
Não precisamos de tratar alguém como se tivesse cinco anos só porque necessita de apoio.
E isto é particularmente importante porque, muitas vezes, a infantilização vem acompanhada de uma espécie de apagamento da identidade.
A pessoa deixa de ser "a Maria", "o João", "a Ana" ou "o Pedro" e passa a ser simplesmente "o deficiente".
Não.
É uma pessoa.
E tem nome.
Inclusão não é caridade
Esta é uma distinção que considero fundamental.
A inclusão não é fazer um favor a alguém.
Não é "ser bonzinho".
Não é permitir que uma pessoa com deficiência participe porque queremos mostrar que somos uma sociedade moderna.
Inclusão é um direito.
Uma escola acessível não é um luxo.
Um local de trabalho acessível não é um privilégio.
Um transporte público acessível não é uma gentileza.
Um edifício onde uma pessoa em cadeira de rodas consegue entrar sem enfrentar uma verdadeira prova de obstáculos deveria ser normal.
Informação acessível deveria ser normal.
Comunicação acessível deveria ser normal.
Respeitar diferentes formas de comunicação deveria ser normal.
O problema é que ainda chamamos "inclusão" a coisas que deveriam simplesmente fazer parte da vida.
As barreiras nem sempre são visíveis
Quando pensamos em deficiência, muitas vezes pensamos imediatamente numa cadeira de rodas, numa bengala ou noutro equipamento de apoio.
Mas nem todas as deficiências são visíveis.
E mesmo quando são visíveis, não conseguimos perceber tudo aquilo que está por detrás delas.
Uma pessoa pode precisar de ajuda para uma determinada tarefa e conseguir fazer outra completamente sozinha.
Pode ter uma grande limitação física e uma enorme capacidade intelectual.
Pode ter uma deficiência intelectual e uma extraordinária capacidade artística.
Pode precisar de apoio na comunicação e, ainda assim, compreender perfeitamente aquilo que está a acontecer à sua volta.
É por isso que devemos ter cuidado com as nossas conclusões.
Não conhecemos a vida de alguém só porque conseguimos ver uma parte dela.
A acessibilidade também é mental
Podemos construir rampas, instalar elevadores e adaptar casas de banho, mas se continuarmos a olhar para a pessoa com deficiência como alguém inferior, ainda não conseguimos falar verdadeiramente de inclusão.
A acessibilidade também começa na cabeça.
Começa quando deixamos de assumir que uma pessoa não consegue.
Começa quando perguntamos "precisas de ajuda?" em vez de agarrarmos imediatamente alguém sem autorização.
Começa quando esperamos o tempo necessário para que uma pessoa se exprima.
Começa quando não fazemos comentários cruéis.
Começa quando ensinamos os nossos filhos a respeitar as diferenças.
E começa também quando percebemos que qualquer um de nós pode, em algum momento da vida, passar a necessitar de apoio.
A vida muda num instante.
Um acidente, uma doença, o envelhecimento ou qualquer outra circunstância pode transformar aquilo que hoje consideramos garantido.
Talvez por isso devêssemos construir uma sociedade que não abandone ninguém quando a vida muda.
E as famílias?
Também precisamos de falar das famílias.
Porque, muitas vezes, quando nasce uma criança com deficiência ou quando uma família recebe um diagnóstico, não é apenas a vida daquela pessoa que muda. Toda a família precisa de aprender uma nova realidade.
Há consultas.
Há terapias.
Há burocracias.
Há preocupações.
Há cansaço.
Há medo.
Há momentos em que não sabemos sequer onde procurar ajuda.
E, muitas vezes, existe também uma enorme pressão para sermos fortes o tempo inteiro.
Mas as famílias também precisam de apoio.
Precisam de informação.
Precisam de descanso.
Precisam de ser ouvidas.
Precisam de serviços que funcionem.
Precisam de uma sociedade que não lhes diga apenas "vocês conseguem".
Às vezes conseguem porque não têm alternativa.
E isso é muito diferente.
Ensinar as crianças a respeitar a diferença
Se queremos uma sociedade diferente amanhã, temos de começar a educar as crianças hoje.
Ensinar uma criança a não gozar com alguém que fala de forma diferente.
Ensinar que uma cadeira de rodas não é um brinquedo.
Ensinar que algumas pessoas precisam de mais tempo.
Ensinar que existem pessoas que comunicam de outras formas.
Ensinar que ajudar não significa mandar.
Ensinar que ninguém merece ser excluído.
E, sobretudo, ensinar através do exemplo.
Porque as crianças observam-nos muito mais do que aquilo que imaginamos.
Se nos ouvem fazer comentários preconceituosos, aprendem.
Se nos veem respeitar, aprendem.
Se nos veem incluir, aprendem.
Se nos veem defender alguém que está a ser tratado injustamente, aprendem.
E talvez seja essa uma das maiores responsabilidades que temos enquanto adultos.
Não quero pena. Quero respeito.
Se há uma coisa que gostaria que este texto deixasse clara é esta: as pessoas com deficiência não precisam da nossa pena. Precisam do nosso respeito.
Não precisamos de transformar cada pessoa com deficiência numa história de superação.
Nem toda a pessoa com deficiência está aqui para nos ensinar uma lição.
Nem tudo o que uma pessoa faz precisa de ser considerado "inspirador" apenas porque tem uma deficiência.
Uma pessoa pode simplesmente estar a viver.
E viver não precisa de ser extraordinário para ter valor.
Precisamos de parar de olhar para a deficiência como se fosse a história inteira de alguém.
É apenas uma parte.
Uma parte importante, naturalmente, porque pode influenciar a forma como aquela pessoa vive e as necessidades que apresenta. Mas não é a totalidade da sua identidade.
Talvez a verdadeira inclusão seja muito mais simples
Talvez a inclusão comece quando deixarmos de perguntar se uma pessoa "merece" estar num determinado lugar.
Talvez comece quando deixarmos de criar exceções e começarmos a criar espaços para todos.
Talvez comece quando percebermos que acessibilidade não beneficia apenas pessoas com deficiência. Uma rampa pode ajudar uma pessoa em cadeira de rodas, mas também um pai com um carrinho de bebé, alguém com uma lesão temporária ou uma pessoa idosa.
Um mundo mais acessível é um mundo mais confortável e mais justo para todos.
E talvez seja esse o verdadeiro objetivo.
Não criar um mundo onde algumas pessoas são "incluídas" no mundo dos outros.
Criar um mundo que já tenha espaço para todos.
Porque inclusão não é abrir uma porta e dizer: "Podes entrar."
Inclusão é construir uma sociedade onde essa porta nunca tenha sido feita para deixar alguém de fora.
E se conseguirmos ensinar isso aos nossos filhos, talvez um dia os dias de sensibilização deixem de ser necessários para lembrar aquilo que deveria ser óbvio.
Até lá, continuaremos a falar.
Continuaremos a explicar.
Continuaremos a lutar.
Não por pena.
Não por privilégios.
Mas por aquilo que todas as pessoas merecem desde o primeiro dia em que chegam ao mundo:
respeito, dignidade, igualdade e o direito de viver a própria vida. 💛
──────────────────────────────
🌿
Escrito com alma e carinho,
💛 Daniela Silva
Autora do Alma Leve
© Daniela Silva, 2026.
Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução total ou parcial
deste conteúdo sem autorização da autora.

Trabaajr con inclusión real es complejo , por todo lo que conlleva instalar buenas prácticas
ResponderEliminarpara la efectiva atención del que lo necesita ...es de largo aliento poder aunar buenos criterios
compromisos con la familia y aspectos que se van solucionando día a día.
Hemos conocidos personas maravillosas y que han dejado huella en el colegio
Todos debemos aprender a realizar un buena inclusión en todo lugar
porque toda persona merece respeto y dignidad efectiva.
saludos.
Muito bom seu texto, recheado de verdades.
ResponderEliminarAinda temos muito que aprender sobre como praticar a inclusão na sociedade como um todo, pois é um trabalho que tem muitas demandas e deve atuar em várias frentes. Mas estamos caminhando. Hoje estamos melhores do que ontem e isso já é um ganho, um grande aprendizado. O processo é de longo prazo. Aprender dói. E vamos que vamos.
Bjssss, marli
Olá 1 Amei seu texto bastante reflexivo sobre inclusão . Já caminha bem nos dias de hoje , mas ainda tem-se muito a completar. Abraços .
ResponderEliminarhttps://kantinhodafe.blogspot.com
Post muito necessário! É preciso que cada vez mais, pessoas com conhecimento e sensibilidade falem sobre o assunto.
ResponderEliminarBeijo
Profunda reflexión uno debe ser inclusivo con todas las personas. Te mando un beso.
ResponderEliminar