Clara voltou a ler a mensagem no telemóvel, mas o ecrã estava vazio. Não havia número, histórico nem qualquer registo de que alguém lhe tivesse escrito.
— Isto não pode continuar assim — disse, olhando para Helena. — Alguém sabe mais do que nós e está a brincar connosco.
Miguel passou a mão pelo rosto, visivelmente inquieto.
— Há uma coisa que vos escondi. E, se queremos perceber o que está a acontecer, chegou a altura de vos contar.
Helena cruzou os braços.
— Espero que desta vez não nos escondas mais nada.
Miguel respirou fundo.
Vinte anos antes, quando a jovem professora desapareceu, ele ainda era estudante universitário. Chamava-se Laura e tinha sido a sua professora durante um estágio numa escola da região. Era uma mulher discreta, apaixonada por literatura e conhecida por deixar pequenas mensagens dentro dos livros que emprestava aos alunos.
Na semana anterior ao desaparecimento, Laura tinha-lhe pedido ajuda para guardar uma caixa de documentos. Disse-lhe que algumas pessoas estavam interessadas em impedir que certas informações viessem a público.
Miguel aceitou, mas nunca chegou a descobrir tudo o que a caixa continha.
— E porque nunca contaste isso à polícia? — perguntou Clara.
— Porque, dois dias depois, recebi uma carta. Diziam que, se falasse, alguém de quem eu gostava muito pagaria por isso.
Helena ficou imóvel.
— Quem era essa pessoa?
Miguel olhou diretamente para ela.
— A tua mãe.
O silêncio que se seguiu pareceu ocupar toda a sala.
Helena sentou-se lentamente. A mãe tinha morrido havia alguns anos e nunca lhe falara de qualquer ligação a Laura. Ou, pelo menos, era nisso que sempre acreditara.
— Estás a dizer-me que a minha mãe sabia o que aconteceu àquela professora?
— Não sei se sabia tudo. Mas encontrei uma carta dela entre os documentos que guardei.
Miguel abriu a mochila e retirou um envelope amarelado. Na frente, escrito à mão, estava o nome de Helena.
Ela reconheceu imediatamente a letra.
Com os dedos a tremer, abriu o envelope. Dentro havia apenas uma folha dobrada e uma pequena fotografia de uma roseira.
Leu a carta em silêncio. Depois, voltou ao início e leu-a novamente.
— O que diz? — perguntou Clara.
Helena ergueu os olhos, com a voz presa na garganta.
— A minha mãe escreveu que Laura não desapareceu por acaso. Descobriu algo sobre a escola onde trabalhava e alguém tentou silenciá-la. Mas há uma parte que não compreendo.
Entregou a folha a Clara.
No final, havia uma frase sublinhada duas vezes:
“Se a rosa azul voltar a florescer, procura aquilo que deixei onde as palavras nunca morrem.”
Clara pensou imediatamente na biblioteca.
As três palavras que mais lhe chamaram a atenção eram precisamente aquelas que Helena lhe ensinara a procurar quando era sua aluna: as palavras escondidas nos livros, nas margens e nos lugares onde quase ninguém se lembrava de olhar.
Nessa mesma tarde, regressaram à escola.
A biblioteca estava vazia. Clara percorreu as estantes até chegar à secção de poesia. Parou diante de um livro antigo, com a lombada gasta e várias páginas soltas.
Ao abri-lo, caiu um pequeno papel.
Não era uma carta. Era uma chave.
Junto dela, alguém escrevera um número: 27.
— O que abre isto? — perguntou Helena.
Miguel empalideceu.
— A cave da casa abandonada.
Clara olhou para ele, incrédula.
— Sabias que havia alguma coisa escondida lá?
— Não. Mas conheço aquela casa. Foi lá que encontraram os últimos vestígios de Laura.
Ao anoitecer, os três seguiram até à velha propriedade. O portão estava preso por correntes enferrujadas, mas uma porta lateral encontrava-se entreaberta.
Lá dentro, o ar cheirava a madeira húmida e a tempo esquecido.
Desceram as escadas até à cave. Ao fundo, encontraram uma porta metálica com o número 27 gravado na superfície.
A chave entrou perfeitamente na fechadura.
Quando Helena abriu a porta, a luz das lanternas revelou uma pequena divisão cheia de caixas. Havia fotografias, documentos e dezenas de cartas cuidadosamente organizadas.
Clara pegou na primeira fotografia que encontrou.
Era Laura.
Estava sentada numa cadeira, a sorrir para a câmara. Ao lado dela, de pé, encontrava-se uma mulher que Clara reconheceu imediatamente.
A mãe de Helena.
Mas não foi isso que a fez prender a respiração.
No verso da fotografia, alguém escrevera uma data de apenas seis meses antes.
Laura não tinha desaparecido vinte anos atrás.
Alguém a tinha visto viva recentemente.
Helena deixou a fotografia cair sobre a mesa.
— A minha mãe sabia que ela estava viva...
Nesse instante, ouviram um ruído no andar de cima.
Passos.
Lentos. Firmes.
Miguel apagou a lanterna e fez sinal para que não se mexessem.
Uma voz feminina atravessou o silêncio da casa:
— Helena? Sei que estás aí.
Clara sentiu o coração acelerar.
A voz era desconhecida, mas havia qualquer coisa de estranhamente familiar na forma como pronunciara o nome da professora.
Os passos aproximaram-se da escada.
E então a mulher disse:
— Se encontraste a fotografia, já sabes que a tua mãe não te contou toda a verdade.
Helena levou a mão à boca.
Porque aquela voz não pertencia a uma desconhecida.
Pertencia a alguém que ela julgava nunca mais voltar a ver.
A porta da cave começou a abrir-se.
E, antes de a luz iluminar o rosto da mulher, Clara percebeu que a rosa azul não era uma ameaça.
Era um aviso.
Continua…
Para quem não leu a primeira parte pode fazer aqui.

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