16 outubro, 2026

Uma Rosa Azul, Um Sequestro, Um Professor - Parte II O Segredo por Detrás da Porta

Olá, queridas almas.💛 

Clara voltou a ler a mensagem no telemóvel, mas o ecrã estava vazio. Não havia número, histórico nem qualquer registo de que alguém lhe tivesse escrito.

— Isto não pode continuar assim — disse, olhando para Helena. — Alguém sabe mais do que nós e está a brincar connosco.

Miguel passou a mão pelo rosto, visivelmente inquieto.

— Há uma coisa que vos escondi. E, se queremos perceber o que está a acontecer, chegou a altura de vos contar.

Helena cruzou os braços.

— Espero que desta vez não nos escondas mais nada.

Miguel respirou fundo.

Vinte anos antes, quando a jovem professora desapareceu, ele ainda era estudante universitário. Chamava-se Laura e tinha sido a sua professora durante um estágio numa escola da região. Era uma mulher discreta, apaixonada por literatura e conhecida por deixar pequenas mensagens dentro dos livros que emprestava aos alunos.

Na semana anterior ao desaparecimento, Laura tinha-lhe pedido ajuda para guardar uma caixa de documentos. Disse-lhe que algumas pessoas estavam interessadas em impedir que certas informações viessem a público.

Miguel aceitou, mas nunca chegou a descobrir tudo o que a caixa continha.

— E porque nunca contaste isso à polícia? — perguntou Clara.

— Porque, dois dias depois, recebi uma carta. Diziam que, se falasse, alguém de quem eu gostava muito pagaria por isso.

Helena ficou imóvel.

— Quem era essa pessoa?

Miguel olhou diretamente para ela.

— A tua mãe.

O silêncio que se seguiu pareceu ocupar toda a sala.

Helena sentou-se lentamente. A mãe tinha morrido havia alguns anos e nunca lhe falara de qualquer ligação a Laura. Ou, pelo menos, era nisso que sempre acreditara.

— Estás a dizer-me que a minha mãe sabia o que aconteceu àquela professora?

— Não sei se sabia tudo. Mas encontrei uma carta dela entre os documentos que guardei.

Miguel abriu a mochila e retirou um envelope amarelado. Na frente, escrito à mão, estava o nome de Helena.

Ela reconheceu imediatamente a letra.

Com os dedos a tremer, abriu o envelope. Dentro havia apenas uma folha dobrada e uma pequena fotografia de uma roseira.

Leu a carta em silêncio. Depois, voltou ao início e leu-a novamente.

— O que diz? — perguntou Clara.

Helena ergueu os olhos, com a voz presa na garganta.

— A minha mãe escreveu que Laura não desapareceu por acaso. Descobriu algo sobre a escola onde trabalhava e alguém tentou silenciá-la. Mas há uma parte que não compreendo.

Entregou a folha a Clara.

No final, havia uma frase sublinhada duas vezes:

“Se a rosa azul voltar a florescer, procura aquilo que deixei onde as palavras nunca morrem.”

Clara pensou imediatamente na biblioteca.

As três palavras que mais lhe chamaram a atenção eram precisamente aquelas que Helena lhe ensinara a procurar quando era sua aluna: as palavras escondidas nos livros, nas margens e nos lugares onde quase ninguém se lembrava de olhar.

Nessa mesma tarde, regressaram à escola.

A biblioteca estava vazia. Clara percorreu as estantes até chegar à secção de poesia. Parou diante de um livro antigo, com a lombada gasta e várias páginas soltas.

Ao abri-lo, caiu um pequeno papel.

Não era uma carta. Era uma chave.

Junto dela, alguém escrevera um número: 27.

— O que abre isto? — perguntou Helena.

Miguel empalideceu.

— A cave da casa abandonada.

Clara olhou para ele, incrédula.

— Sabias que havia alguma coisa escondida lá?

— Não. Mas conheço aquela casa. Foi lá que encontraram os últimos vestígios de Laura.

Ao anoitecer, os três seguiram até à velha propriedade. O portão estava preso por correntes enferrujadas, mas uma porta lateral encontrava-se entreaberta.

Lá dentro, o ar cheirava a madeira húmida e a tempo esquecido.

Desceram as escadas até à cave. Ao fundo, encontraram uma porta metálica com o número 27 gravado na superfície.

A chave entrou perfeitamente na fechadura.

Quando Helena abriu a porta, a luz das lanternas revelou uma pequena divisão cheia de caixas. Havia fotografias, documentos e dezenas de cartas cuidadosamente organizadas.

Clara pegou na primeira fotografia que encontrou.

Era Laura.

Estava sentada numa cadeira, a sorrir para a câmara. Ao lado dela, de pé, encontrava-se uma mulher que Clara reconheceu imediatamente.

A mãe de Helena.

Mas não foi isso que a fez prender a respiração.

No verso da fotografia, alguém escrevera uma data de apenas seis meses antes.

Laura não tinha desaparecido vinte anos atrás.

Alguém a tinha visto viva recentemente.

Helena deixou a fotografia cair sobre a mesa.

— A minha mãe sabia que ela estava viva...

Nesse instante, ouviram um ruído no andar de cima.

Passos.

Lentos. Firmes.

Miguel apagou a lanterna e fez sinal para que não se mexessem.

Uma voz feminina atravessou o silêncio da casa:

— Helena? Sei que estás aí.

Clara sentiu o coração acelerar.

A voz era desconhecida, mas havia qualquer coisa de estranhamente familiar na forma como pronunciara o nome da professora.

Os passos aproximaram-se da escada.

E então a mulher disse:

— Se encontraste a fotografia, já sabes que a tua mãe não te contou toda a verdade.

Helena levou a mão à boca.

Porque aquela voz não pertencia a uma desconhecida.

Pertencia a alguém que ela julgava nunca mais voltar a ver.

A porta da cave começou a abrir-se.

E, antes de a luz iluminar o rosto da mulher, Clara percebeu que a rosa azul não era uma ameaça.

Era um aviso.

Continua…

Para quem não leu a primeira parte pode fazer aqui.

Com carinho, sempre. Com alma, acima de tudo. 
Daniela Silva 💛 
Alma Leve 

 © Daniela Silva, 2026.

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