03 julho, 2026

A Avó Primavera e o Neto Verão

Olá, queridas almas 💛

Dizem que as estações do ano mudam devagar. Mas eu acho que algumas despedidas acontecem tão silenciosamente que quase nem damos por elas.

Numa pequena casa rodeada de flores silvestres e árvores antigas, vivia a Dona Primavera. Tinha mãos delicadas, cheiro a ervas frescas e uma voz calma que parecia vento leve nas manhãs de abril. Passava os dias a cuidar dos jardins, a acordar flores adormecidas e a ensinar os pássaros a regressarem depois do inverno.

Todos os anos, quando junho começava a aproximar-se do fim, ela sentava-se na velha cadeira de madeira à porta de casa e ficava em silêncio a olhar o céu. Não porque estivesse triste, mas porque sabia que estava na hora de passar o mundo ao seu neto.

O Verão.

Ao contrário da avó, o Verão chegava sempre cheio de energia. Corria descalço pelos campos, trazia os bolsos cheios de luz dourada e ria alto como quem nunca aprendeu a viver devagar. Gostava de praias cheias, roupa estendida ao sol, gargalhadas em noites quentes e crianças a brincar até tarde sem se preocuparem com o amanhã.

Naquela tarde, apareceu finalmente junto à casa da avó com os cabelos iluminados pelo sol e o coração impaciente.

“Avó, está na hora?”, perguntou ele.

A Dona Primavera sorriu baixinho enquanto lhe ajeitava a camisa amarrotada.

“Está. Mas antes de ires, senta-te aqui comigo.”

E ali ficaram os dois, lado a lado, enquanto o céu começava lentamente a mudar de cor.

“Lembra-te de cuidar bem das pessoas”, disse ela. “O verão deixa as pessoas felizes, mas também cansadas. Há quem sorria mais nesta altura do ano e há quem se sinta ainda mais sozinho no meio da alegria dos outros.”

O Verão ouviu em silêncio, algo raro nele.

“Leva-lhes noites bonitas”, continuou ela. “Cheiro a mar. Pés descalços. Gelados derretidos nas mãos das crianças. Música ao longe. Conversas demoradas nas varandas. Faz as pessoas abrandarem um pouco.”

“E se eu não conseguir?”, perguntou ele, agora mais calmo.

A Dona Primavera olhou as flores à volta da casa e sorriu com aquela serenidade que só existe nas pessoas que já viveram muito.

“Nenhuma estação consegue curar todas as dores do mundo. Mas todas podem deixar um bocadinho de beleza enquanto passam por ele.”

O vento soprou devagar pelo jardim. Algumas pétalas começaram a cair no chão, enquanto ao longe já se sentia o cheiro quente dos dias longos de junho.

“Avó… e tu? Não ficas triste por partir?”

Ela demorou alguns segundos a responder.

“As estações nunca desaparecem verdadeiramente. Apenas descansam enquanto outra ocupa o seu lugar.”

O Verão abraçou-a então com força. E naquele instante percebeu algo que nunca tinha entendido antes: crescer também significava aprender a continuar aquilo que alguém antes de nós começou com amor.

Nessa noite, a Dona Primavera fechou lentamente as janelas da pequena casa florida e deixou o neto partir pelo mundo.

E foi assim que o verão chegou.

Trouxe consigo o cheiro a protetor solar, roupas leves ao vento, festas populares, mergulhos demorados, pôr do sol dourado e noites onde parecia proibido ir dormir cedo. Mas no meio de toda a sua luz, levava também algo da avó consigo: a delicadeza de reparar nas pequenas coisas.

Porque talvez seja isso que as estações nos ensinam sem falar.

Tudo passa.

Mas aquilo que é vivido com amor deixa sempre rasto no coração.

Escrito com alma e carinho,

Daniela Silva 💛

© Daniela Silva, 2026.

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