Olá, queridas almas 💛
Há experiências que nos ficam atravessadas na garganta durante muito tempo. Não porque gostemos de reviver o que aconteceu, mas porque às vezes é preciso parar, respirar fundo e encontrar forças para falar. E talvez tenha sido exatamente isso que aconteceu comigo. O que vou contar hoje aconteceu em abril, quando fui ao shopping com a minha assistente pessoal levantar os meus novos óculos. Só decidi falar agora porque a reclamação já foi feita junto da empresa e porque acredito sinceramente que certas situações não podem continuar a ser tratadas como normais.
Naquele dia, bastava algo simples: apanhar um transporte público. Só isso. Uma coisa que devia ser básica para qualquer cidadão. Mas para quem vive com mobilidade reduzida, aquilo que para muitos é apenas rotina pode rapidamente transformar-se numa experiência humilhante, cansativa e revoltante.
Na minha zona existe apenas uma carreira da STCP. Os restantes autocarros pertencem a outra empresa e nenhum deles possui acesso para pessoas com mobilidade reduzida. Ou seja, quando perdemos um autocarro acessível, não existe propriamente alternativa. Existe espera. Existe dependência. Existe cansaço.
O primeiro autocarro chegou e era conduzido por uma mulher motorista. Parou para nos atender e foi educada e simpática connosco. O problema não foi a atitude dela. O problema foi o próprio sistema. O autocarro apenas tinha rampa manual na porta da frente e a inclinação era tão absurda que a minha cadeira praticamente ficou suspensa. As rodas levantavam no ar e simplesmente não conseguíamos entrar. A motorista acabou por nos dizer para aguardarmos pelo autocarro seguinte, que já vinha atrás.
O problema é que esse autocarro seguinte pertencia à outra empresa. Sem acessibilidade.
Resultado? Mais de meia hora à espera.
E quando finalmente chegou outro autocarro da STCP, veio também aquilo que mais me custou naquele dia: a falta de humanidade.
O motorista passou o tempo inteiro a refilar comigo e com a minha assistente pessoal. Frases como “anda lá com isso”, “despacha-te” e “eu não vou fazer horas extras” saíam constantemente da boca dele enquanto nós tentávamos simplesmente entrar no autocarro em segurança. E o mais revoltante nem foi só o tom. Foi a atitude. Limitou-se a encostar-se ao autocarro, mãos nos bolsos, a bufar, enquanto olhava para nós como se fôssemos um incómodo.
Quem realmente tomou iniciativa para ajudar foi uma rapariga jovem que saiu do autocarro espontaneamente. Os restantes passageiros estavam claramente indignados com a situação, especialmente os mais idosos, mas infelizmente também não tinham capacidade física para ajudar muito mais. E honestamente? Nunca me vou esquecer da expressão deles. Aquela mistura de desconforto, tristeza e impotência.
Quando finalmente consegui entrar, a situação piorou ainda mais. Apesar do autocarro estar sinalizado como acessível, o espaço real não era funcional. A curva de entrada era tão apertada que quase danifiquei a cadeira de rodas. O espaço reservado era minúsculo. Nem um carrinho de bebé caberia ali em condições, quanto mais uma cadeira de rodas elétrica ou mais robusta. Acabei por ficar parcialmente a ocupar o corredor, sentindo aquele incómodo silencioso de atrapalhar a passagem dos outros passageiros, mesmo sem ninguém me dizer nada diretamente. Mas nós percebemos. Sentimos. Não somos cegos ao desconforto dos outros.
Entretanto, a resposta da empresa chegou. Disseram-me que existe uma rampa automática na porta traseira, mas que muitas vezes está avariada. E disseram também que os autocarros cumprem as normas de acessibilidade.
Sinceramente? Se aquilo cumpre as normas, então as normas estão profundamente erradas.
Porque quem cria certas regras claramente nunca viveu uma situação destas. Nunca ficou preso numa paragem à chuva. Nunca sentiu o peso da dependência. Nunca teve medo de cair de uma rampa demasiado inclinada. Nunca teve de pedir desculpa por ocupar espaço num transporte público que também é seu por direito.
E sobre a alegada “avaria” da rampa automática, também há muito a dizer. Porque antes deste episódio, quando fui ao shopping escolher os óculos, já outro motorista me tinha dito exatamente a mesma coisa: “a rampa está avariada”. Só que, nesse dia, um senhor que passava na rua insistiu para que o motorista rebaixasse o autocarro. Quando o fez, a rampa saiu automaticamente sem qualquer problema.
Ou seja, muitas vezes não é avaria. É falta de formação. Falta de preparação. Falta de vontade de aprender a trabalhar com pessoas com mobilidade reduzida.
E quero deixar isto muito claro: nem todos os motoristas são iguais. O motorista da primeira ida, foi prestável, calmo e educado E isso também deve ser reconhecido. Porque quando alguém faz o mínimo com humanidade, já parece exceção. E isso diz muito sobre o estado das coisas. O que mais uma vez serve de lição para todos os portugueses que andam com discursos xenofóbicos, pois esse motorist é brasileiro, já o motorista sem empatia, humildade e humanidade, é português!
O que aconteceu comigo não é um caso isolado. E talvez seja precisamente isso que mais me assusta. Quantas pessoas deixam de sair de casa porque já não têm forças para lidar com estas situações? Quantas desistem de trabalhar, estudar, passear ou simplesmente viver porque o acesso básico à mobilidade continua cheio de barreiras?
Eu não quero privilégios. Não quero tratamento especial. Quero apenas aquilo que qualquer cidadão merece: respeito, dignidade e acesso real aos transportes públicos. Porque o próprio nome o diz. Públicos. De todos. Não apenas de alguns.
E enquanto tiver voz, vou continuar a falar sobre isto. Por mim e por todas as pessoas que já passaram pelo mesmo em silêncio.
Escrito com alma e carinho,
Daniela Silva 💛
© Daniela Silva, 2026.

Incrível que ainda possa existir essa tamanha falta de acessibilidade. Tens mesmo que reclamar e muito falar! Que resolvam e tenha mais empatia! beijos, chica
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