26 outubro, 2026

Uma Borboleta na Noite de Halloween

 Jaime era um menino de oito anos, de cabelo cor de fogo, pele em tom de pêssego e muitas sardas nas bochechas e no nariz. As outras crianças da aldeia faziam troça dele por ter o cabelo cor de cenoura. Por isso, Jaime não tinha amigos da sua idade. Vivia solitário, brincava sozinho, conversava com a Natureza e fazia amizade com os animais.

Um dia, a 31 de outubro, numa tarde banal como tantas outras, saiu da escola e viu uma borboleta. Era outono e não era habitual encontrar borboletas naquela altura do ano. Ainda assim, decidiu fazer amizade com ela e aproximou-se devagar.

Porém, quanto mais se aproximava, mais a borboleta voava para longe, como se quisesse que ele a seguisse. Curioso, Jaime decidiu obedecer-lhe.

A borboleta, com as suas bonitas asas em tons de laranja e castanho, pousou num arbusto à entrada do bosque. Mas, quando Jaime se aproximou, levantou voo novamente e, desta vez, entrou no bosque.

Jaime já tinha chegado até ali e, apesar de o céu começar a escurecer, resolveu continuar. Respirou fundo e entrou.

Não voltou a ver a borboleta, por isso, procurou-a por todo o lado. Mas, quanto mais procurava, mais fundo entrava no bosque e mais escuro ficava o céu, até que se perdeu.

O vento começou a soprar com força, trazendo consigo um frio que lhe gelava a pele. Jaime sentiu medo, frio e fome. Precisava de encontrar uma maneira de se aquecer. Juntou alguns galhos, esfregou-os e conseguiu fazer uma pequena fogueira.

À luz das chamas, reparou que estava ao lado de um cemitério abandonado. As campas estavam cobertas de ervas daninhas e algumas lápides encontravam-se partidas, como se ninguém visitasse aquele lugar há muitos anos.

Aproximou-se, com a esperança de encontrar alguma coisa que o pudesse ajudar. Mas o que viu foram sombras que passavam rapidamente e ouviu risos que pareciam vir de todos os lados.

Encheu-se de coragem e seguiu os sons. De repente, ouviu madeira a chiar, como se alguém estivesse a abrir uma porta velha e pesada.

Olhou em redor e viu um esqueleto a erguer-se de um caixão velho, dentro de uma sepultura. Na cabeça, tinha uma cartola com uma fita roxa. Jaime reconheceu aquele tipo de figura de um filme de terror que tinha visto às escondidas do irmão mais velho, Carlos.

O esqueleto tinha um corvo pousado no ombro. Entretanto, começou a formar-se um nevoeiro espesso, enquanto três morcegos sobrevoavam a estranha figura.

Foi então que o esqueleto avistou Jaime.

Começou a avançar na sua direção, lentamente, como se cada passo lhe exigisse um esforço enorme. Jaime sentiu as pernas tremer, como se fossem feitas de gelatina. Queria fugir, mas o medo parecia tê-lo prendido ao chão.

Foi nesse instante que surgiu um fantasma atrás dele.

Era jovem e chamava-se Tobias. Tinha sido ele quem estivera a rir momentos antes. Na verdade, queria brincar com Jaime desde que este o seguira, quando Tobias assumira a forma de uma borboleta.

Ao perceber que o seu novo amigo estava em apuros, Tobias decidiu ajudá-lo.

Começou a girar à volta do esqueleto, cada vez mais depressa, até o deixar completamente desorientado. O esqueleto tentou acompanhá-lo, tropeçou numa pedra e caiu desajeitadamente, transformando-se num monte de ossos espalhados pelo chão.

Jaime ficou de boca aberta. Depois, olhou para Tobias e os dois desataram a rir.

Abraçaram-se e, a partir daquele momento, tornaram-se grandes amigos. Conversaram, brincaram e riram-se durante horas, como se se conhecessem desde sempre. Pela primeira vez em muito tempo, Jaime sentiu que não estava sozinho.

Antes de conduzir Jaime para fora do bosque, Tobias ofereceu-lhe uma tigela feita de casca de abóbora, cheia de guloseimas.

Jaime agradeceu, prometendo guardar aquele segredo e regressar no ano seguinte.

Os dois prometeram repetir o encontro todos os anos, na noite de 31 de outubro. E assim nasceu uma amizade muito especial, entre um menino de cabelo cor de fogo e um fantasma brincalhão que adorava transformar-se numa borboleta.

Dizem que, desde então, na noite de Halloween, quando as folhas secas dançam ao vento e o nevoeiro cobre os caminhos, uma borboleta de asas cor de laranja e castanho pode ser vista a voar junto à entrada daquele bosque.

E, se alguém tiver a sorte de a seguir, talvez descubra que, por detrás das sombras e dos sustos, até os lugares mais assustadores escondem amizades inesperadas.

Fim. 🎃🦇 

Beijinho,

© Daniela Silva, 2026.

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