A Maria gostava de outubro.
Gostava do ar mais fresco, das folhas no chão e daquela vontade súbita de tirar as mantas do armário, mesmo sabendo que depois ia andar meia hora à procura de onde tinha guardado as fronhas.
Era uma mulher como tantas outras.
Tinha dias em que acordava cheia de energia e dias em que só queria mais cinco minutos na cama.
Dizia muitas vezes que precisava de cuidar mais de si, mas depois aparecia sempre qualquer coisa mais urgente.
A casa.
O trabalho.
A família.
As compras.
Aquela mensagem que tinha de responder.
E, quando dava por ela, o dia tinha acabado.
“Para a semana trato disso”, pensava.
E a semana seguinte chegava e levava consigo a promessa da anterior.
Até que um dia, num daqueles outubros, Maria passou por uma montra cheia de coisas cor-de-rosa.
Parou por uns segundos.
Não foi nada de especial.
Não houve música triste nem nenhuma epifania.
Foi simplesmente aquele pensamento que aparece do nada:
“Eu tenho mesmo de começar a cuidar mais de mim.”
E continuou a andar.
Dois minutos depois já estava a pensar no que ia fazer para o jantar.
Era mesmo assim.
Maria não era perfeita.
Nenhum de nós é.
Mas aquela ideia ficou.
Uns dias depois, marcou uma consulta que andava a adiar.
Quando desligou o telefone, ficou a olhar para o ecrã.
— Pronto. Já está.
E sentiu um pequeno alívio.
Não porque tivesse medo.
Mas porque percebeu que cuidar de si não tinha de ser uma coisa complicada.
Às vezes era só parar de adiar.
Nessa mesma semana, encontrou a sua amiga Sofia.
Foram beber café, como tantas outras vezes.
Falaram de tudo e de nada.
Do tempo.
Dos filhos.
Do trabalho.
De uma vizinha que tinha mudado o cabelo e de outra que continuava a estacionar sempre no mesmo lugar, apesar de toda a gente saber que ali não podia. 😄
Até que Sofia ficou em silêncio.
— Maria, tenho uma coisa para te contar.
E contou-lhe.
Tinha cancro da mama.
Maria ficou sem saber o que dizer.
Na cabeça passaram-lhe dezenas de frases.
“Vai correr tudo bem.”
“Tu és forte.”
“Não penses nisso.”
Mas nenhuma lhe parecia certa.
Porque ela não sabia se ia correr tudo bem.
E Sofia não precisava que lhe dissessem que tinha de ser forte a toda a hora.
Então Maria fez aquilo que sabia fazer melhor.
Ficou.
Pegou-lhe na mão.
— Não sei o que te dizer... mas estou aqui.
Sofia sorriu.
— Já chega.
E ficaram as duas em silêncio durante uns segundos.
Depois, porque a vida é estranha e continua mesmo quando não devia, Sofia perguntou:
— Então, vais comer esse bolo ou não?
Maria riu-se.
— Estava à espera que perguntasses.
E comeram o bolo.
Naquele dia, Maria percebeu uma coisa que nunca mais esqueceu.
Uma pessoa pode estar a passar por uma das fases mais difíceis da sua vida e, ainda assim, continuar a querer rir.
A falar de coisas banais.
A comer um bolo.
A fazer planos.
A ter dias em que não quer falar da doença.
E outros em que precisa de falar sobre tudo.
Não existe uma maneira certa de viver uma situação destas.
Cada mulher tem a sua história.
Os seus medos.
As suas forças.
Os seus dias bons.
E os dias em que simplesmente não apetece ser forte.
Maria começou então a prestar mais atenção.
A si.
Às pessoas à sua volta.
Àquelas pequenas alterações que tantas vezes ignoramos.
E percebeu que prevenção não significa viver assustado.
Significa conhecer o nosso corpo, fazer os rastreios recomendados, estar atento e procurar ajuda quando alguma coisa nos preocupa.
E percebeu também que estar ao lado de alguém não significa ter sempre as palavras certas.
Às vezes significa mandar uma mensagem.
Levar um café.
Acompanhar a uma consulta.
Ou simplesmente perguntar:
— Queres que fique aqui contigo?
Outubro passou.
Depois veio novembro.
E dezembro.
A vida continuou.
Sofia continuou a ter dias bons e dias difíceis.
Maria continuou a esquecer-se onde tinha deixado as chaves.
E continuou a dizer que precisava de organizar melhor a casa sem nunca chegar verdadeiramente a fazê-lo. 😄
Mas havia uma coisa que tinha mudado.
Maria já não dizia tantas vezes:
“Depois trato disso.”
Porque percebeu que cuidar de si não era egoísmo.
Era amor.
Amor pela vida.
Pelas pessoas que tinha à sua volta.
E por todos os dias que ainda queria viver.
E talvez seja essa a pequena lembrança que outubro nos deixa.
Não precisamos de esperar por um susto para começar a cuidar de nós.
Não precisamos de ter todas as respostas.
Não precisamos sequer de saber exatamente o que dizer quando alguém que amamos recebe uma notícia difícil.
Às vezes, basta estar.
Basta ouvir.
Basta não desaparecer.
E, sobretudo, basta lembrar que por detrás de cada diagnóstico existe uma pessoa.
Uma mulher com nome.
Com família.
Com sonhos.
Com medos.
Com sentido de humor.
Com dias bons e dias péssimos.
Com uma vida inteira que é muito maior do que aquela palavra.
Cancro.
Por isso, neste outubro, Maria deixa-nos apenas um pedido:
Cuida de ti.
Não adies sempre.
Faz a tua prevenção.
E, se alguém perto de ti estiver a passar por isto, não procures a frase perfeita.
Procura apenas estar.
Porque, às vezes, um simples
“Estou aqui”
pode significar muito mais do que imaginamos. 💗
Fim.
Com carinho, sempre.
Com alma, acima de tudo.
Daniela Silva 💛
Alma Leve

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